Manifesto pelas outras cores

Estou aqui com meu café, pensando no lindíssimo chá de bebê ao qual compareci ontem. Decoração primorosa, toda detalhada, toda em rosa. Logo que chegamos – eu e minha filhota, que nesse dia tinha escolhido blusa e calça verde – a anfitriã – amiga da mãe do bebê por nascer – elogiou “o meu filho” lindo. Logo chegaram as mães com as outras crianças e eu entendi – todas as “princesinhas” de vestidinho e lacinhos, e os “campeões” de calças e blusa de futebol. Era um código de vestimenta claro que apenas a minha filha estava burlando, com sua roupa verde.

A anfitriã, mãe de um menino de três anos, logo conduziu minha filha ao quarto do garoto e mostrou os brinquedos – “ele só tem carrinhos, não tem nenhuma boneca”, disse ela com um sorriso apologético. “Sim”, pensei, “seria um ‘sociocídio’ deixar que um menino brinque com bonecas e aprenda a se interessar e cuidar de crianças, de forma a ser um bom pai no futuro”.

Me peguei pensando nos almoços de família da minha infância. Minha vó obrigava as netas – SÓ as netas, os netos nunca – a arrumar a mesa depois do almoço e lavar toda a louça.

A filha de uma conhecida, exatamente um ano mais nova que a minha cria, é uma confusão tão grande de laços, pompons, babados de vestidos e fitas, que mal dá pra ver se a cara da criatura nas fotos. E claro, a menina se perde no meio de um mar de rosa. Um dia a mãe ainda vai pintar essa garota toda de rosa pra economizar no tecido. Escrevam o que estou falando!

E a minha vizinha, de quatro anos, outro dia veio aqui em casa e perguntou porque minha filha tem carrinhos. “Carrinho é brinquedo de menino”. Respondi, “Olha, minha filha é menina e adora brincar com seus carrinhos”.

Voltando ao chá de bebê, sou super a favor do rosa. Mas não do rosa exclusivo e absoluto! Sou a favor de dar às crianças as cores, as possibilidades, as experiências. A favor de que minha filha experimente, veja, sinta, escolha por si mesma. Para que pegar a criança logo que nasce (ou até antes) e já enfiar à força na forminha azul de “menino” ou rosa de menina”? Porque não apresentar todas as cores e deixar que a criança se torne quem ela quiser ser? Porque tendemos tanto a insistir que meninos sejam fortes e corajosos engenheiros ou astronautas, e as meninas, lindas e doces princesas? Claro que tudo bem querer ser a Kate Middleton quando crescer. Eu mesma já tive esses momentos, entendo! Mas ficarei IGUALMENTE feliz se minha filha quiser ser médica, ou motorista de ônibus, pianista. Ou o que diabos ela quiser ser.

Que tal dispensarmos os rótulos e organizarmos chás de bebês brancos, amarelos, roxos, vermelhos, verdes, violetas, rosas, azuis, pretos, marrons, prateados etc? Dar aos futuros adultos a noção de que o arco-íris – e a sociedade – tem muitas cores e possibilidades, não seria muito mais legal?

Leituras sugeridas:

http://mycherryworld.blogspot.de/2015/02/sexismo-em-criancas-e-bebes-rosa-para.html
http://maenaodorme.com.br/2015/08/28/parem-com-o-sexismo-na-infancia/
http://brasil.babycenter.com/thread/831163/sexismo-na-maternidade

(em inglês)
http://femmagazine.com/2014/11/28/gendered-baby-showers-harm-your-baby/

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